Era uma cesta de lixo. Tinha a impressão, a nítida impressão, de que havia, ali na calçada, alguém me observando. Cheguei a ficar assustada. O coração palpitante demarcando a sinfonia de meu desespero rústico. Atrapalhava-me entre a realidade e a possível realidade. Queria me submeter somente à leitura, que tentava fazer concentrada... Dispersava-me qualquer movimento, e eu, pequena dentro de meu medo, não agredia a realidade de ninguém que passava naquela calçada úmida da noite que não dorme. Continuava a ler. Me infiltrava no dialogo. E a cesta de lixo, me encarando. Um homem. Um homem caminhava do outro lado da rua com a sacola na mão. Me olhava. Talvez estivesse tentando adivinhar se por trás daquela penumbra se escondia um saco de lixo ou uma pessoa, lendo no escuro. “imagina, ninguém estaria aqui, nesse escuro, lendo... não... não com esse perigo de hoje em dia.” Talvez tivesse pensado. Mas foi fundo, olhou de novo, e de novo, e novamente. Aí eu criei coragem e o encarei. Tal como uma raposa, quando encontra seu jantar. Como eu não tinha coragem de encarar a cesta de lixo. Como eu não tinha coragem de me encarar no espelho. Ah, se ao menos eu não soubesse o motivo da minha dor! Encarar-me-ia com coragem, como fazia com aquele sujeito. Despistaria-me, como fiz com aquele sujeito. E sairia ilesa, como me aconteceu... Como não acontecia com aquela cesta de lixo, imóvel, ali, logo à minha frente, me encarando. Despindo-me. Igualando-me, o pior!Igualando-me! Que absurdo... Se ao menos eu não soubesse o tamanho do meu sofrer. O ignóbil tamanho da minha cobiça. Sim, minha cobiça. Minha cobiça por uma vida que não fosse absurda. Se ao menos a vida esquecesse de ter esperança e me fizesse morrer. Sim a vida. É como diz o Cortázar “Provavelmente, de todos os sentimentos, o único que de fato não é nosso é a esperança. A esperança pertence à vida, é a própria vida se defendendo.” Gostaria de não pensar que morrer é a válvula de escape mais acessível. Aquela cesta de lixo, era meu mundinho torpe em miniatura.